Querinin Tupi, os dez dias
por Zé Peixoto, 1998
O drama traduz-se em poucos movimentos. É preciso sintetizar os fatos históricos, colhidos durante meses de pesquisa. Também devemos aparar as arestas distorcidas pela cultura oficial. A epopéia de uma nação. Nunca houve realmente um descobrimento. Tudo não passou de uma invenção homérica.
*
As primeiras naus despontam sob uma névoa alaranjada, que acorda preguiçosa, delineada pela ingenuidade do nosso horizonte recém revelado. No alto de um monte à beira mar, um olhar pagão vislumbra igaras enormes, serpentes demoníacas que avançam adornadas por tiras de lona branca. Ouvem-se gritos pataxós. Muita correria com sexos expostos. Arcos e flechas bradam a grande batalha contra o desconhecido. Homens, mulheres, velhos, crianças..., famílias inteiras despertam o florescer da primeira infância do Novo Mundo Tropical. Acrescentam-se alguns movimentos, cruéis, medidos em fotogramas. Lanças vazias cortam os céus.
Todos já se besuntaram em desenhos de um geometrismo ingênuo. Argila branca, urucum e jenipapo decoram a nudez desta gente pré-Vera Cruz. A história deslancha seu processo irreversível nos corpos pintados da figuração impaciente. Após quase cinco séculos de história, os índios brasileiros desvendam-se num requinte maltrapilho. É preciso decupar a cena rigorosamente. Talvez, seja mais prudente alterar alguns trechos do roteiro, evitando que o massacre seja ainda maior.
Os homens portam iaparas e atiram uíbas com curari, muitas flechas. No canto esquerdo do quadro, uma espessa cortina de fumaça indicia a coivara ritual para a grande batalha. Confesso que no início tive medo, mesmo sabendo que contávamos com a experiência de um excelente técnico em efeitos especiais. Temia que a direção do Parque Nacional não autorizasse aquele fogaréu todo em área de reserva. Mas com tanta organização e segurança, até mesmo os guardas florestais ficaram impressionados. Cavamos numa clareira, um enorme fosso com mais de cinqüenta metros de diâmetro. Pilhas de pneus, cerca de duzentos, queimavam em combustão com alguns galões de gasolina. Tudo muito controlado.
As primeiras naus começaram a ancorar atormentadas pelo fluxo e refluxo das ondas. Da Capitania São Gabriel, observa-se ao longe o Monte Pascoal, a grande itá da Serra dos Aymorés. As duas caravelas e o barco de mantimentos ainda fazem vela a seis léguas da costa. Expectativa! É quase chegado o momento da invenção. Num movimento sincrônico, alguns batéis e esquifes avançam em direção à praia. Nicolau Coelho deve segurar um pouco mais alto a bandeira com as armas reais. O signo expansionista de D.Manuel I precisa ter destaque, criar impacto no momento crucial da invenção do povo brasileiro. Afinal, rodamos um filme de ficção histórica, não um documentário enlatado para tv. Urge a verossimilhança! Aquele frade franciscano não pode estar rezando de joelhos dentro do barco. Orações só em terra firme, depois de cravada a Cruz da Purificação de Cristo e demarcados os limites da consagração cristã.
Ação! Os selvagens esperam ansiosos o momento da grande verdade. O início da colonização européia atraca no ibiçui branco, sob a forma de serpentes d’água, bestas marinhas prontas para o bote letal em nossa verdadeira cultura. Aproxima-se o fim da era romântico/primitiva. O cenário é trágico, dantesco. A construção épica se deflagra na forma de um violento trovão, que explode num céu de chumbo. Os selvagens prostram-se de joelhos. A ira dos deuses é revelada pela sonoplastia fundamental. Algumas mulheres, as mais velhas da nação tupinik~i, choram em lamento a falsa descoberta. Seios e ventres flácidos, longos cabelos cor de pituna e olhares quase sem vida. Abençoada pela cólera de tupãçununga, aborta-se enfim, a última esperança de uma reviravolta na trágica história das nações indígenas.
Quero repetir o desembarque. Desta vez com mais realismo! Talvez, uma esquife virando pela força das ondas na arrebentação. A expressão do desejo de conquista precisa ser sôfrega. No meio da espuma, marujos encharcados devem puxar seus barcos quase com os dentes. A força do Rei e a força da natureza. É o momento certo de afogar a ilusão dos espectros dourados. O esplendor do sol não merece se refletir nas águas de um turquesa tão ingênuo. Ao invés disso, suprime-se a calmaria, delineando em poética o grande desembarque com as embarcações se arrebentando como escarro contra os arrecifes de coral.
*
É preciso acelerar a produção. Não esperava tantas interrupções terceiro-mundistas no set de filmagens. Time is money! Estamos parados há mais de uma hora. Tivemos, outra vez problemas de transmissão de energia nos cabos que saem dos geradores. O calor é insuportável: 42 graus à sombra. Tenho a sensação de que a qualquer momento eclodirá uma rebelião tupi. As pessoas estão agitadas. Todos transpiram em bicas. É melhor oferecer algo de beber aos figurantes. E que seja água de coco, um refresco na diplomacia líquida da produção. O rapaz do cafezinho, apesar do hálito insuportável, pode contornar bem o problema. Além da cortesia, ele parece ser competente no trato com todo o pessoal da equipe.
Abás e portugueses foram re-hidratados e parece que todos se acalmaram um pouco. Espero que agora facilitem um pouco mais o trabalho dos maquiadores, desesperados em recompor desenhos que se desfazem na medida que os corpos transpiram.
O problema elétrico foi finalmente contornado. O assistente de direção já deu ordem aos eletricistas que religuem os geradores. Recupera-se a estética americana do pós-guerra. O ronco de 30 quilos de corrente incendeia com gelatina vermelha troncos e cipós no meio da mata. Um inferno tropical de árvores frutíferas, palmeiras, bambuzais e muito pau-brasil, tudo de plástico. É impressionante a extrema qualidade destes artifícios cenográficos, produzidos pela mesma empresa italiana que fabricou as réplicas de armamentos iraquianos, bombardeadas pela aviação americana, como se fossem reais, durante a Guerra do Golfo. Num quadro em acetato à la Rousseau, centenas de metros de cabos, HMIs, tomadas, grampos, tripés, magazines, câmeras, trilhos, gruas... Cria-se o efeito de estúdio ao ar livre. As temperaturas da cor do sol e das ampulhetas de tungstênio fundem-se numa pintura natural. A cor do descobrimento é quente como o inferno.
Seqüência 27. Mulheres cozinhando. A culinária primitiva é deflagrada em enormes panelas de barro, esteiras de palha com folhas de bananeira, pilões de maçaranduba... As índias mais jovens trituram mandioca num balé ritmado. O som surdo da madeira, socando com ironia a raiz branca, marca o ritmo dos risos brejeiros, dentes fortes que insistem em debochar da vida. Ao fundo, em silencio, as mais velhas amassam a pasta de mandioca com as mãos. O operador já perdeu três vezes o movimento do travelling. Corte! Dessa vez tem que valer. A panorâmica tem que partir lenta. Primeiro a mãe catando piolhos no indiozinho pançudo. Depois, recuperando sem pressa, aquele índia agachada, soprando gravetos em brasa no canto esquerdo do quadro. Quero fechar no olhar ambíguo daquela que parece ser a mãe de todos os índios, tantas são as rugas que lhe secaram os seios, a boca, os olhos.
*
O trabalho foi muito cansativo. Por volta das cinco, tão logo rodamos a última seqüência do dia, peguei o carro e saí sem destino pela estrada que levava à cidade. Outra vez o calor era insuportável. Como num cartão de visitas ao prazer, as praias ainda esbanjavam um sol vigoroso, refletido nas areias de um branco absoluto. O ar circulava abafado pelas janelas abertas e minhas roupas estavam grudavas ao corpo. Numa transpiração caudalosa eu descarregava a tensão das filmagens. Precisava relaxar.
Eu dirigia sem pensar em nada. Sempre gostei da sensação de vazio ao volante, essa ausência que automatiza meus movimentos e concentra meus reflexos no controle obstinado da máquina. Minha solidão, no entanto, tinha um encontro marcado. Veio misturada de azul, verde queimado, amarelo palha e branco. Lá estava ela, sentada num barranco à beira da estrada, voltando sozinha da praia, pronta para entrar numa cena imprevista. Parei o carro como pude. Um homem não é capaz de resistir assim aos encantos imediatos de uma mulher solitária. Seu nome era Lívia. Viajava há duas semanas de carona pelo Nordeste. Ainda ficaria por mais alguns dias em Porto Seguro , e só depois descia até Alcobaça, antes de voltar para São Paulo. Morava no motor do Brasil, desde que começou a cursar a faculdade de Sociologia.
Lívia era uma mulher independente e aventureira. Naquele lugar selvagem e deserto, não teve receio algum em entrar no meu carro, sem saber que tipo de sujeito eu era. Isso me excitava ainda mais. Não havia falso pudor nas suas coxas expostas livremente. Lívia era irresistivelmente autêntica. Seus gestos sensuais espelhavam a cor de sua pele bronzeada. Seus gracejos eram aquecidos pelo quentume da paixão. O bafo do demônio se apoderava insistente da cabine do carro.
“Como você consegue ficar de camisa?”, perguntou passando a mão pela minha nuca e deslizando os dedos pelo meu rosto molhado de suor. Aquele jogo inconseqüente de sedução descarada me agradava. Trocávamos olhares silenciosos. Procurávamos o momento certo de um beijo que pudesse traduzir nosso prazer de homem e mulher solitários. Veio. Ardente. Subitamente apaixonado. Pleno.
Tínhamos ainda umas duas horas de sol, tempo bastante para um bom mergulho de fim de tarde em Trancoso. Dei meia volta. Quando chegamos à vila, ela saiu primeiro do carro. Desceu correndo a ladeira em direção à praia. Mais parecia uma adolescente travessa, chamando por mim numa série de acenos e sorrisos espontâneos.
Estacionei o carro ao lado da igreja e fui apressado ao seu encontro. Estava nua dentro d’água, livre como se a natureza inteira fosse sua. Tirei a roupa e mergulhei também. O contato da água morna nos alagava de excitação. Minha boca provava a delícia salgada daqueles seios e lhe explorava o resto do corpo afogando-me em sal. Lívia me engolia como uma sereia encantada. Nossos beijos espumavam as ondas numa transparência anilada de mergulhos que revelavam nossos íntimos submersos. O sexo navegava ao sabor da maré. Assim, acabamos atracando à pelo na areia, entrelaçados na economia de um gozo que podia explodir a qualquer momento. Nossas peles tinham a química perfeita daquele amor quase selvagem, irracional por conseqüência, incomensurável. Então, o orgasmo ressoou no bramir das marolas. Estirados pela volúpia da corpo vestido de água e areia, acompanhamos prostrados a fuga do sol no horizonte. Uma enorme bola de fogo descia em homenagem a lua crescente. O calor sufocante cedia a uma leve brisa trazida do fundo do mar.
*
Quando a quilha do primeiro batel roçou em Pindorama, quase vinte homens tupinik~ins já esperavam na praia. Com uma câmera em plano geral, e outra cobrindo detalhes, podemos obter um bom resultado de edição. Intercalo imagens ao plano seqüência da grua. Close nos olhos nativos, estarrecidos pelo medo da chegada dos paranãboras. Aqueles caraíbas de corpo enfeitado em panos estavam armados de bacamartes e mosquetes até o pescoço. Numa fração de segundos, podiam reduzir a um monte de carne podre aquela gente nua, de pele lustrosa e parda, ingênua nos sexos expostos com naturalidade. Desembarcava a primeira expedição comandada pelo fidalgo Senhor de Belmonte e Alcaide, propositalmente planejada para rachar com diplomacia a América de Cristóvão Colombo.
Na taba, escondida no meio da caátiba, o morubixaba reúne os chefes maratecoaras na tapuia dos homens. As máscaras de guerra se fundem às espadas de sol que atravessam as folhas de uricana no teto. No enfumaçado da pajelança, flagra-se o retrato de mais um massacre inevitável. O espírito da sabedoria e da cura se incorpora ao velho pajé catu. Penso na Boiúna, na Caapora, no Cururupeba, no Mapynguari, em todos os espíritos nefastos temidos por nossos ancestrais brasileiros. Sinto o cheiro do gênio Anhangá incorporando sua proteção à fauna e à flora. Ele está escondido nos troncos das matas, nos quatis e iraras prenhas, nos córregos dos paranãs com suas cunhãtas banhando-se nuas. Penso no chorar dos itús, no sussurrar do aracati, no beijo roxo de coaraci e iací, no mar sem fim despencando além do tempo. Minhas entranhas provam o gosto amargo de uma tristeza antropológica. Preciso traduzir este sentimento - um travelling fechado nas mãos. Cada homem leva até a boca o cachimbo da sabedoria tupi-pataxó. Devem tragar a certeza de milhares de mortes futuras, por gripes e gonorréias. Gilles me dá a garantia de um movimento lento, tão lento quanto a erva que se dissipa no ar. Não me importo se o plano tiver dois, três, cinco minutos. Não quero cortes. Assim, posso transmitir a lenta agonia de uma cultura dispersada no ar, cedendo ao absolutismo estético das fronteiras da Europa Ibérica.
*
Depois da expedição à foz do Rio Cahy, Nicolau Coelho trouxe a bordo um sobreiro de penas de papagaio e um ramal de contas brancas. Os habitantes daquele chão, tal é o primitivismo de seus adornos, não terão de certo a mesma resistência dos povos africanos ou do Samorim de Calicut. Os capitães observam a tudo atentamente.
Após singrarem por quarenta e três dias o Atlântico, finalmente foi possível tomar partilha de um trecho das Tordesilhas. Ali, a ordem da coroa não encontraria resistência. Não seriam necessários gastos com galeões de combate, nem grandes exércitos. Pedr’Alvares Cabral fora abençoado pela graça de Deus e a desgraça dos tupinik~ins. Por fim, o Capitão-mor da armada portuguesa tinha a confirmação tão esperada. O relato de Nicolau garantia que aqueles selvagens, espalhados pelas praias, se curvariam sem empecilhos ao régio estandarte recebido das mãos del Rey, em Belém, com o firme propósito de conferir à Portugal sua parte na santa divisão do mundo.
Foi com o cair da tarde que o mar se encrespou ao vento sudoeste. Nuvens de chumbo estacionaram carregadas de cólera sobre a Terra de Vera Cruz. Entocados como bichos, por trás das moitas e do arvoredo na mata, mais de quatrocentos homens espreitam as boiúnas caraíbas balançando atormentadas ao sabor frenético do mar. Nenhuma palavra tupi. Apenas olhos cautelosos de atalaia. Vejo fusões em movimento. Índios acocorados em vigília. Grumetes desesperados, reforçando amarras numa coreografia de braços, pernas e gritos lusitanos. Prepara-se a grande tempestade, o ibitúguaçu.
Duas realidades cromáticas. Na floresta, quero um efeito de luz estourada no aguaceiro. Vejo quase um turbilhão de lágrimas de fogo, ensopando de luz mística nossa nudez ancestral. Na armada, ao contrário, a penumbra que desvenda o desespero em manter tochas acesas. Soldados e marujos se transformam em silhuetas irreconhecíveis, recortadas apenas pelo contraluz azulado de um tempestade que traduz o caos. Sei o quanto vou depender da sonoplastia para obter o resultado desta cena. O vento uiva assustado por trovões. As ondas batem nos cascos e atiram as embarcações ao destino das vagas. Uma esquife se desgarra e se arrebenta contra a lâmina de corais. Homens ao mar, corpos tragados. Vozerio. E em terra, apenas silêncio, um profundo querinin tupi.
*
Uma série de dúvidas vêm me assaltando desde a seqüência da tempestade. Não sei exatamente que caminho seguir. Durante a escritura do roteiro, a maioria das situações me parecia clara. E agora, algumas simplesmente se diluem numa explosão interminável de questionamentos. Gestos se enquadram tecnicamente à textos, os cenários ao tempo da ação, as cores e as zonas de luz à sensibilidade das películas. A construção de cada detalhe segue numa engenharia pensada e planejada com meses de antecedência. O movimento, porém, é interno e visceral.
Estou jantando no restaurante do hotel. Entre uma garfada e outra, percebo o quanto estou perdido dentro de mim mesmo. Não sei que decisão tomar. A visita dos dois índios, levados por Afonso Lopes à Capitania de Álvares Cabral, é nebulosa. Talvez, seja melhor ampliar sua construção cênica e reduzir o comprometimento das palavras. Assim, é possível que só através da imagem consiga representar todo o absurdo daquela passagem histórica, desconhecida da maioria dos brasileiros. Não posso perder a ocasião do deboche. Afinal, o que a fidalguia não deve ter sentido, sentada sobre aquela alcatifa tão nobre, à luz de tochas, aos pés da imponente cadeira de Pedro? Que aversão levou os dois aborígines a cuspir a comida cozida com fidalgo requinte, e a dispersar no ar aquela cortina vaporizada de vinho tinto, servido em finas taças de prata? Olhei para a comida no meu prato de porcelana austríaca. Um delicioso filé rocquefort com batatas sautés. Enfim, eu começava a descobrir o absurdo gastronômico da cena. Simplesmente abandonei o jantar. Parti como uma flecha a procura de verdades nativas.
Devo ter caminhado por mais de meia hora. Achei o local certo para atracar minhas angústias num quarteirão com cheiro de mijo e mulheres de perfume barato. Numa bodega, alguns homens jogavam bilhar. Todos bebiam além da conta, e as mulheres esperavam sonolentas por clientes, fumando caladas em mesas pontilhadas por moscas.
Uma, duas, três pingas safadas. Na vitrina gordurosa, um prato com bolinhos de aipim. Dois bolinhos, quatro, cinco cachaças. Aos poucos, o álcool começa a me abrir as fronteiras da brasilidade. Estou diante de gente simples e autêntica. Serão eles a geração terminal dos pataxós, jogando a bola 7 no 21, e espremendo com tristeza cada dose de água-ardente no balcão, enquanto as putas limpam restos de terra nas unhas desmanteladas de laca vermelha? Será o canto perdido das guerras o que faz rugir no rádio esse xaxado quase fora do ar? Serão as mesmas moscas? Serão pequis, cajuís, piquiás, magabas, miricis, abiús, cupuaçus, taperebás, ingás, açaís, bacabas, juçaras, pupunhas, buritis, catolés, anajás apodrecendo sobre a memória faminta de um povo?
Tudo ficou claro de repente! Os dois abás estão desnudos, com seus beiços de osso e os cabelos tosquiados acima das orelhas. Põem-se a rir em delícia. Com seus mil trejeitos ariscos, mais parecem suçuarunas aprisionadas. O embiú e a guaba, que lhes foram servidos em baixelas de lei, estavam podres. Eles cospem a fina culinária e explodem em gargalhadas ingênuas. Preparadas ao tempero conquistador da rota das Índias, toda aquela degustação de especiarias agora sucumbe sobre o tapete real, em restos mastigados que tingem de vergonha e espanto os olhares perplexos dos senhores de Lisboa. Pronto! Eu podia voltar para o hotel e dormir.
*
Assim que o dia clareou, a equipe de produção começou a montagem da primeira missa. O trabalho da contra-regra e dos maquinistas era pesado. Todo o equipamento e a cenografia tinham que ser transportados de balsa, o que nos obrigou a inúmeras viagens até que tudo estivesse finalmente pronto no ilhéu.
Ao contrário do que prega a cultura oficial, a liturgia de Frei Henrique Soares não foi acompanhada pelos nativos, que insistiam em passear aos bandos ao longo daquelas praias selvagens. Sequer os mercadores, carpinteiros, ferreiros, torneiros, caldeireiros, soldados e toda a marinhagem portuguesa, fizeram parte da cena. O Ilhéu da Coroa Vermelha foi muito mais que um porto seguro. Era a geografia de um missa professada aos limites do pensamento dominante, o mesmo pensamento que ao longo dos últimos séculos arrasou nossas florestas, dizimou nossos índios, vasculhou as serras a procura de ouro e esmeraldas, desbravou o sertão regulando a derrama, aportou navios-negreiros no espólio da escravatura, e massacrou ideais libertários com a mão de ferro do Império soberano.
A panorâmica é feita de um ultraleve, em vôo rasante. A imagem, vista de cima, revela a imponência de um momento único e inadiável. Batéis aportam num desfile de capitães, pilotos, sacerdotes e padres franciscanos, a mais fina flor da realeza. Nas mãos de Pedro, a bandeira da Ordem da Cavalaria sob a efígie de Cristo.
Pelo walk-talkie tenho a confirmação de que a tomada aérea foi perfeita. Valeu! Podemos, finalmente, entrar no ilhéu com as câmeras e o resto do equipamento.
Faz-se um silêncio absoluto sob o altar. Todos escutam as palavras do padre vindo de Coimbra, mergulhados na inebriante mirra do incensário. Aires, Simão, Sancho, Bartolomeu, Diogo, Nicolau, Pero, Afonso, são os Correia, Miranda, Tovar, Dias, Coelho, Escobar, Lopes, elevando suas preces à Roma e ao Algarve. Cálice e pão simbolizam nos céus o sangue e a carne do Cristo. Profetiza-se, na síntese da cruz, a grande síndrome da humanidade.
Todos aqueles homens estão atônitos diante de um aspersório perdulário, atirando água-benta ao solo pagão. É a certeza de uma grande vitória em nome do Rei. Efetiva-se o batismo do “Mundus Novus” lusitano, aos pés do sacramento apostólico romano. Pedr’Álvares Cabral é absorvido pelo fervor da oração. Afinal, lhe foi concedida à luz da história, a honra de ser o homem a lavrar com sua honra a certidão de batismo da nova terra.
Até que a vazante no ilhéu os permitisse, jogaram-se todos pelas areias, ouvindo a história do Santo Evangelho. Quero a imagem centrada em dois homens: Mestre João e Pero Vaz de Caminha. O primeiro, descobridor do Cruzeiro nos céus antárticos, preocupado apenas no recolhimento diplomático da cena, em avaliar os 56 graus tomados a altura do sol, 17 graus abaixo do Equador. Vaz de Caminha, por sua vez, observa atento cada detalhe, imerso na precisão de sua reportagem histórica.
Bacharel em artes e médico-cirurgião de Sua Alteza, Mestre João se esquecia das conquistas da cartografia ibérica, deslanchada pelo astrolábio do barbarismo árabe? Escrivão da futura feitoria de Calicut, Vaz de Caminha tinha consciência do poder de sua pena de pato, tintando de negro os pergaminhos do relato oficial da invenção do Brasil? Homens absolutamente fundamentais.
Talvez, decida incluir passagens rápidas e silenciosas destes dois personagens. Mestre João me aparece debruçado sobre a carta celeste. Ele observa estrelas em céu aberto no chapitéu do navio, debilitado pela erisipela que lhe maltrata cada dia mais as pernas, sob o calor compulsivo dos trópicos. Fusão. Na cabine, à luz de velas, Caminha rabisca com primazia palavras sinuosas. De suas mãos brota fluente o texto que apaziguará as fronteiras conflituosas de Lisboa e Castella, comprometidas desde que Colombo avistou no Caribe o Guanahani.
*
A floresta mergulhou numa tristeza profunda. Querinin tupi. As plantas, os bichos e sua gente, percebem que os caraíbas chegaram para ficar. A câmera na mão passeia livre, homenagem à Glauber Rocha. O tropeço passa a ser proposital. Macacos, quatis, iraras, gambás, antas, veados, cobras, jabutis, tamanduás, onças, escondem-se no crepúsculo da mata. Os guerreiros pataxós têm o corpo inteiramente encoberto pela negritude do jenipapo e se camuflam pendurados na copa das árvores. São a imagem viva dos espíritos protetores. São mil zarabatanas de bambu, mirando na direção dos invasores, fundeados ao largo dos recifes já em poder da Europa. Os dardos de fibra de palmeira apontam a curarina paralisante e mortal.
No ocaruçu deserto, ecoa o choro de uma nação. Os homens não saíram para a embiara. As mulheres não prepararam a pasta de typioca, nem alisaram o cabelo dos piás com óleo de coco. Ninguém catou quiiba no outro. Ninguém fornicou. Todos estão sitiados nas tapuias, quase uns por cima dos outros.
Não existe mais continuidade. Quero sobrepor flashes, chicotes, imagens simples, gestos naturais de um passado onde a alegria transbordava em pés descalços e dançava na ocabytera. Era o tempo da felicidade. Era o tempo de Pindorama. Mas esse tempo acabou. Agora a noite esconde os obajaras.
No centro da ocara, uma grande fogueira queima a última tentativa de afastar os demônios. A morte está ancorada a dez braças, a pouco mais de meia légua da costa. A praia é agora a fronteira do inferno.
*
No dia seguinte, junto com a tristeza do sol nascendo encoberto pelas lágrimas doces de Jurupari, a marinhagem começou a desembarcar com alfanjes e espadas afiadas. Se dividiam em pequenos grupos que tomavam posições estratégicas ao longo da praia. Alguns deles, ressabiados pelo silêncio da natureza em luto, logo se embrenharam mato adentro, montando guarda aos dois carpinteiros, encarregados de esculpir a santa cruz da invenção. Desta vez, os domínios não seriam demarcados pelo tradicional padrão de posse, gravado em pedra com as armas de Portugal.
No meio da floresta, tão logo elegeram a madeira mais nobre, capaz de resistir em cruz ao tempo da história, vieram as machadadas secas, que fizeram revoar socós, tapucurus, curicaras, jaçanãs e taquiris, num vôo desarticulado e nervoso. À cada batida, árida e cortante, era como se o útero de todas as mães e mulheres tupinik~ins, também estivesse sendo ceifado. Na dor pura e imaculada que ainda sentia àquela gente nativa, viam sangrar do ventre da selva a seiva de uma terra agora sem futuro. Não muito longe dali, rebatendo o eco metálico dos machados em suas barrigas, mães atiravam filhos despencando falésia abaixo, num coral de choros capaz de trazer do fundo da alma a mais cruel das dores.
Corte seco. Montagem paralela. Os homens tupinik~ins ficaram sem alma. Alagados pelo álcool das uvas tintas, que os vinhedos do Senhor Jesus apregoaram como sangue no cálice cristão, mais de quatrocentos abás deliram bêbados e cambaleantes pelas praias outrora virgens. O riso flui na debilidade da inconsciência; a infância traga a maturidade da sabedoria milenar; os músculos relaxam as armas; a oferenda integral de um povo se dá de forma pacífica.
*
Mais um dia e tudo estará terminado. Sempre que um trabalho vai chegando ao fim, sinto este mesmo vazio, uma espécie de depressão que me atira de frente contra um mundo cheio de incongruências das quais sei que faço parte. Questiono minha culpa por não ter sido capaz de me aproximar ainda mais daquilo que chamam de verdade. Minha vontade nessas horas é de começar tudo outra vez, do início, provavelmente procurando reciclar meus medos numa nova leitura. Minha vontade nessas horas é de fugir, deixando para trás qualquer traço que um dia possa me obrigar a enfrentar minha omissão, simplesmente por permitir que o esquecimento ou a dúvida se transformassem em pecado.
Procurei me esconder por trás da bebida, uma garrafa de uísque quase inteira. Dormi com uma mulher de quem não consigo mais me lembrar o nome. Sei que ela foi paciente. As mulheres sem nome precisam de muita paciência para suportar homens bêbados, principalmente se eles são roteiristas ou diretores de cinema. Eu, na verdade, não era capaz de satisfazer nem a mim mesmo, quanto mais a uma prostituta, colada à hora do período no relógio da mesinha de cabeceira. Não me recordo, mas é possível que entre uma trepada e outra, tenha lhe pedido alguma opinião a respeito de algum trecho do roteiro. Isso quase sempre acontece, quando bebo demais durante as filmagens.
Acordei no dia seguinte com a cabeça pesando toneladas. Tomei duas aspirinas e guardei por cautela mais uma cartela inteira no bolso do colete. Hoje os portugueses levantariam a cruz e singrariam rumo à Calicut, gerando dúvidas suficientes, para que minha dor de cabeça persistisse até o final das filmagens. Já no café da manhã meu estômago ressentia as conseqüências da bebedeira, contorcendo minhas idéias numa angústia que me deixava aterrorizado sem saber o desfecho de nossa história. Talvez, tenha bebido por punição aquelas duas enormes xícaras de café tinto, que me batiam ardendo nas úlceras e supuravam minha última membrana de indianismo. Fui ao banheiro e vomitei quase tudo o que ainda tinha trancado dentro de mim. Diante do espelho, enfrentei meus olhos empoçados de vergonha e descobri lágrimas, poucas mas verdadeiras. Encharcando o rosto com água e sabão, refiz minha fisionomia escondido por trás de um homem frio e meticuloso, pronto para entrar em cena. Eu podia dirigir o fim.
*
Ação. Reação inócua. O músculo retesado de vinte braços portugueses estende o cordame amarrado à cruz, içando por etapas o madeiro da redenção. Takes de pés resvalando na lama, coxas contraídas, dentes cerrados em fé, olhos cansados em frestas, peitos delineados feito couraças, homens enfrentando de frente um vento avassalador que atira no ar milhares de folhas em redemoinho. O grito rouco e compassado do carpinteiro embala abafado a subida da cruz. O símbolo foi fincado e o solo não é mais pagão.
A câmera vasculha 360 graus. No visor, o primeiro desmatamento circula a clareira aberta no meio da mata. Troncos mortos se espalham pelo chão, dando destaque sublime ao marco da invenção. Onde terão ido os verdadeiros filhos desta terra, agora abençoada? Porque o silêncio parece tão soturno, depois que a vida fugiu assustada para o coração da mata, lamentando ter perdido seu hábitat de sonhos e mergulhado na escuridão de um realismo insípido? Corte. Querinin tupi. Que-ri-nin-tu-pi.
Nunca mais nenhum índio foi visto. As caravelas se estufaram e partiram na direção de Calicut, vomitando seus canhões assassinos contra a rebeldia do Samorim das Índias. Quando as últimas velas despencaram no horizonte, nada mais havia por fazer. Apenas esperar o resultado. Apenas esperar. Corte final.
*
Acordei cedo. Não podia resistir à curiosidade de ler nos jornais o que críticos tinham a comentar sobre o filme. A noite de estréia foi um sucesso. Gente elegante, beijos, abraços, drinques, canapés, rádio, jornal, estrelas, técnicos, televisão... Mas como sempre, a surpresa podia vir no dia seguinte, recheada de alfinetadas, pormenorizada em detalhes que alcançavam um resultado aquém do necessário para a realização de um bom filme.
Levei quase toda a banca de jornais para casa. Li cada linha com a fome dos julgamentos imprevisíveis Alguns artigos foram menos cruéis. Outros, simplesmente ignoraram minhas polêmicas e me rotularam como dono de um olhar pretensioso sobre nossa história. Recortei cada um deles para que mais tarde não me esquecesse de quem sou. Talvez, dentro de algumas semanas, me recupere por completo desse desânimo que a falta de reconhecimento à cultura nos cria quase como norma nesse país. Por enquanto, sentia uma amargura profunda, uma dor sutil de abandono, uma rejeição conjeturada nas evidências de uma cultura monopolista. O melhor alívio seria, portanto, o sono. Dormi por quase quinhentos anos, embalado num imenso Querinin Tupi. Hoje, acordei refeito. Ação!
Fin
Fin
O túnel
Existe um túnel na estrada de ferro que liga Aguas Calientes à Machu Picchu. Nunca soube o seu nome e provavelmente nunca o saberei. Ali ficou guardada a imagem da morte. Por isso prefiro não lembrar seu nome.
A primeira vez que ouvi falar daquele túnel, foi alguns anos antes, em Amsterdã. Eu encontrara Karlo acidentalmente. Ele perambulava sozinho, pela madrugada boêmia dos canais do Red Light. Karlo era um amigo de longa data, acostumado a viajar pelo mundo sempre a procura de emoções novas, aventuras que o tirassem da monotonia do confortável escritório de Ipanema, onde comercializava jóias e pedras preciosas. Cuzco havia se tornado para ele uma passagem obrigatória, cidade onde costumava ir, algumas vezes por ano, a caça de bons negócios com ouro e prata. Isso fazia parte de seu trabalho. Mas como bom aventureiro, sempre que havia uma chance acabava se embrenhando pelos povoados, trilhas e ruínas Incas, que fazem de Cuzco uma cidade cercada de magia e mistério. Foi assim que me falou do túnel, um lugar necessário, uma passagem oculta para se chegar à colina sagrada de Machu Picchu. A profunda escuridão dentro do túnel era uma forma de penetrar fundo a alma, de limpar o espírito e libertar os rancores do coração. Limpar o limbo nunca visto nas trevas. Nunca.
É sempre difícil perceber o momento em que uma estória se inicia. Em geral, apenas nos damos conta de que ela existe, quando já é demasiado tarde e já fazemos parte. É exatamente isso o que acontece quando entramos em um túnel. Avançamos inconscientes, passo a passo, sem medir as conseqüências do desconhecido. Penetramos o mistério numa exploração que progressa cautelosa. Prosseguimos. E quando nos lembramos de parar por um instante, e de olhar para trás, já ultrapassamos o limite de poder voltar. Tudo fica difuso e distante. Só nos resta, então, seguir em frente.
Talvez, seja o medo o que nos emudece nessas horas. As palavras se tornam vazias, desprovidas de sentido. É no barulho dos passos, espalhando cristalino a água empoçada que goteja pela rocha, que se descobre a ânsia da fuga. Não nas palavras. Elas não são capazes de expressar a diversidade de sensações que aflora da escuridão.
O caminho é lúgubre. Aos poucos se dilui a noção de espaço. Os pés desaparecem, os rostos perdem identidade, tudo vira vazio. Revela-se, por inteiro, o medo de nunca mais encontrar uma saída. Então, a luz do mundo se esconde por completo. É neste ponto que vive a morte.
Coisas curiosas começavam a acontecer. O próprio tempo parece não respeitar mais suas regras. Não sei como voltei ao passado. Transportei-me para muito longe dali, para um outro continente, Paris, um lugar próximo à Maison de la Radio. Gilles Dancourt está comigo. Procuramos um túnel desativado do metrô.
Pretendemos rodar ali uma cena do filme que Gilles está fazendo sobre a ocupação nazista de Paris. Na entrada, uma placa: “interdit au passage”. É perfeito para o que queremos. O caminho estava aberto.
A caçada aos membros da resistência francesa avançava pela madrugada. Durante o dia, vários trabalhadores ligados às centrais comunistas foram mortos. Muita gente também foi presa nos arredores de Paris. Cartazes foram espalhados por toda a cidade incentivando a delação. Nestas horas, a ideologia de um homem pode não resistir às torturas alemãs. Alguém confessou aos oficiais da Gestapo o endereço daquele esconderijo.
É alta madrugada. Um comboio alemão cerca as saídas do túnel. Os homens de Hitler estão prontos. Suas botas assassinas avançam para desmantelar mais um reduto da resistência. O assalto é rápido, massacre relâmpago. Dois homens e uma mulher são encostados contra a parede e fuzilados com uma única rajada de metralhadora. Alguns documentos, papéis com mensagens cifradas e a aparelhagem de rádio. Tudo recolhido cuidadosamente em nome do Fuher. Os corpos foram arrastados até o lado de fora. Ensopadas de sangue libertário francês, suas identidades permanecerão expostas como exemplo da superioridade alemã. Os dominadores do Reich precisam seguir com a limpeza de Paris, uma cidade mergulhada na humilhação.
Volto a viver o presente com o medo visceral de pisar em cadáveres, corpos mutilados pela história. As Américas também foram palco de grandes extermínios. Tantos índios foram trucidados pela cobiça do ouro, tantas mortes inocentes e silenciosas, o genocídio em nome “de Dios y del Rey”. Vejo o massacre de todo um continente guardado na escuridão mórbida daquele túnel.
Alguma coisa em mim está mudando. Karlo tinha razão quanto ao túnel. Aqui dentro posse rever meu corpo, meu sangue correndo pelas veias, minhas angústias milenares, tanta coisa que deixei adormecida no fundo do meu poço. Estou no útero da minha segunda gestação.
Mal consigo imaginar que isto é apenas uma passagem. Tudo ganha uma dimensão eterna. Purificação. Estou repleto de emoções não lógicas, impulsos que me atiram em passos cada minuto mais lentos. Caminho sem pressa de alcançar a verdade, a verdade que agora descubro não existir.
Volto outra vez no tempo. Agora Roma. A Catacumba de Priscila. Fui ali visitar a primeira madona pintada pela mão do homem. Nosso grupo é guiado por uma freira que me parece já estar morta. Penso que talvez seja a mãe-guardiã de todas as catacumbas. Ela nos pede que tenhamos cuidado. Conhece cada metro, cada caminho daquele labirinto de atalhos e galerias subterrâneas. Perder-se do grupo pode significar a morte. Descubro que durante a guerra os nazistas também estiveram ali. Alicates, charutos, pinças, tonéis que afogam, o positivo e o negativo em curtos cerebrais, urros que trazem informações preciosas. De novo a barbárie dos soldados alemães.
Decido parar por alguns instantes e acabo me afastando do grupo. Jamais experimentei uma sensação tão nítida de terror. Minha solidão percebe com a voracidade da morte aqueles esqueletos inteiros, ossos partidos, crânios idênticos ao meu, restos esquecidos em nichos abertos há séculos. Era como se os espíritos de todos aqueles corpos ali enterrados, gritassem uníssonos os horrores daquela imensa morada das trevas.
Não consigo entender a relação dessas lembranças com minha ida à Machu Picchu. Já não mergulhei o suficiente no meu passado, redescobrindo na escuridão imagens que me dilaceravam? O que me falta ainda inspecionar na memória para alcançar a saída daquele túnel?
A resposta veio sonora. O apito de um trem. O tempo presente corria como uma locomotiva, pronta a me ignorar ali dentro e a passar inclemente por cima de mim. Começo a correr em direção à luz. Corro sem passado, sem memória, remorsos desfeitos, acéfalo. Inicio uma luta desenfreada contra meus próprios limites. É preciso alcançar a saída mais rápido que o trem.
Foi uma prova árdua conseguir sair do túnel. Tive que me superar para chegar até ali com vida. Talvez, fosse isso o que naquela madrugada em Amsterdã Karlo chamava de passagem. Eu havia conseguido cruzar o medo da morte. Estava pronto para visitar as ruínas da cidade das virgens Incas.
Preciso documentar esse momento único, os Ferrocarriles se desvendando majestosos à luz do dia, imponentes na força de milhares de cavalos que galopam potentes para fora da escuridão. Pego minha câmera Super-8. Vejo pelo visor a imagem do trem, agora um trem sem ameaças, apenas um trem seguindo viagem.
Sempre acreditei nas imagens como provas capazes de nos fazer respirar o tempo perdido. Uma fotografia sempre rouba, à luz do presente, aquilo que mais tarde serão nossas lembranças. Foi pensando assim que vi surgir meu carrasco. Um assassino potencial, pendurado do lado de fora do trem, a perna esticada para atingir minha cabeça, ali a beira do caminho, escondido por trás de uma câmera Super-8. Calçava botas de exército. Era inacreditável que pudesse ter realmente a intenção de me matar. Mas era real. Sorria como um nazista. Seus olhos reluziam a monstruosidade da genética ariana, a zombaria de contabilizar judeus a caminho das câmaras de gás. Tenho certeza de que seu verdadeiro prazer seria a minha morte.
Tive tempo apenas de me jogar para fora da estrada. Rolei alguns metros com a câmera agarrada contra o corpo. O mais importante era garantir a imagem da morte, aquele jovem hitlerista, sua perna retesada, seu olhar assassino.
Demorei até me recuperar. Como podia ter acontecido tudo aquilo? Um atentado gratuito, um gesto brutal capaz de numa fração de segundos me jogar de volta ao túnel, à Segunda Guerra, às catacumbas com seus esqueletos torturados e recobertos de pó. Se naquele instante eu tivesse morrido, certamente cairia nas trevas da incompreensão, sem nenhuma justificativa, nada que elevasse meu espírito em bondade, em luz, em sabedoria. Levaria comigo apenas a revolta dos infernos, contorcido pela dor de um chute mortal capaz de me arrancar o cérebro, espalhado em pedaços, fragmentos de um pesadelo com enorme dor de vingança.
Eu sabia que chegaria até ali algum dia. Afinal, aquele lugar era parte do meu caminho. Algumas vezes tenho esta sensação de estar predestinado a certas passagens na vida. Cenários, cheiros, cores. Acabo identificando estes momentos como partes de mim mesmo. Mas nem por isso perco a surpresa dos descobrimentos. Tudo me surge com uma membrana de vida familiar, reminiscências de um passado que sinto fazer parte de minha estória.
Era isso o que eu sentia em relação àquele homem, ao meu assassino pendurado do lado de fora do trem. Ele era uma referência viva, o foco de uma obstinação que me colocava ao seu encalço. Era a o meu assassino, apesar de ainda estar vivo. Talvez, eu tentasse matá-lo. Frente a frente, sem armas. Arrancaria com as próprias mãos o seu coração, e o lançaria ainda quente aos porcos. Depois, lavaria as minhas mãos ensopadas de sangue, e cheio de prazer me livraria de qualquer culpa, assim como Pilatos se redimiu da morte de Cristo.
Eu estava diante de um desafio. Precisava redefinir aquele rosto, remontar seus gestos, a linha da boca, o traçado dos olhos, a cor dos cabelos, a roupa. Também a bota, sim, aquela bota que podia ter me atingido num óbito frontal. Cada detalhe precisava ser recomposto, engendrado logicamente na recriação do nazista assassino, aquele homem que eu poderia reencontrar a qualquer momento.
O sol ainda não estava alto quando cheguei às ruínas. Uma película dourada tocava de leve as milhares de pedras encaixadas milimetricamente nas casas, nos muros, nas alamedas, nos enormes pátios da cidadela de Machu Picchu. Minha primeira impressão foi de que tudo aquilo sempre esteve assim, imutável, realizado com a perfeição da mão de Deus, e depois abandonado intacto, para que a humanidade pudesse admirar a maestria de uma grande obra do Criador. Na cuidadela, os homens e as mulheres não foram criados a partir do barro, e sim, da pedra. Pedras enormes, de vários formatos, com ângulos astronômicos, pontas e vértices polidos com a insistência de apontar em direção às estrelas. Nada parece estar ali por acaso. Nem mesmo a grama, de um verde tão puro como jamais havia encontrado em qualquer outro lugar do mundo. São gramados imensos, muitos deles na forma de jardins suspensos em escadarias que remontam aos primórdios do céu.
Como num quadro emoldurado pelo tempo, vou desenhando cada detalhe. Diluem-se os traços que me prendiam ao passado. Tempo de trevas, túneis assustadores, trens da morte, botas assassinas. Vejo agora as cores vivas de um presente composto pela remissão de todos os pecados, os meus e os de toda a humanidade. Começo então a caminhar envolto na luz do mundo. Levanto as âncoras que ainda me prendiam ao inferno e abro velas, limpas e alvas, estufadas à brisa suave que me arrasta pelo mar de uma nova consciência.
Este novo homem ainda não tem nome, acabou de nascer. Ele navega pelo desconhecido de si mesmo, recém saído do fundo calcinado da terra, pasmo com a simplicidade e a beleza de cada sombra na cidade das virgens Incas. O coração também parece novo, pronto para se abrir num ritmo inédito, sem as trancas, o rancor e a maleficência que bordam a vingança. Aos poucos, descubro meus novos dedos, as mãos, os pêlos, alguns já brancos no peito, onde o coração ganha um compasso maduro, convicto de que a mudança chega com a carga dos deuses e de seus mil trovões. É como se um filtro me purificasse o sangue e me oxigenasse o cérebro numa leitura inédita de mim mesmo.
O sol atravessou meus passos e me deflagrou a pino nos Andes. Estou no alto do Laboratório Astronômico, de onde posso ter uma visão ampla de toda a cidade. Sinto-me no centro do céu, carta estelar aberta sobre a história. Meu olhar vasculha como bússola. Meus ouvidos parecem sensíveis ao mais ínfimo dos ruídos. Meus gestos parecem congelados diante daquele palco de história, onde a cena viva faz que transbordem meus instantes de verdade, da minha única verdade. Foi neste momento de sintonia cósmica, e através do perdão, que matei definitivamente meu assassino na memória. Nós dois agora estávamos livres para sempre.
Quando voltei para casa, revelei todas as bobinas de super-8 que havia rodado, inclusive aquela do trem saindo do túnel com a bota nazista. Durante muito tempo não tive coragem de me enfrentar com o que havia revelado. Receava que depois do meu regresso de Machu Picchu, não fosse forte o bastante para continuar perdoando aquele gesto que podia ter me acabado com a vida. Aquele filme havia se tornado uma proibição.
Porém, uma noite, meses mais tarde, minha solidão chegou carregada de coragem, ávida por retirar o manto que ainda insistia em recobrir aquele corpo, e impedir que a imagem do meu assassino se convertesse em razão. Desliguei as luzes da sala e mergulhei naquelas imagens. Lá estava o trem saindo do túnel, na proporção exata do que eu havia vivido. Mas esse trem carregava uma verdade nova. E essa verdade me atingia em cheio a cabeça, com a potência de uma locomotiva impiedosa, incapaz de poder evitar o nascimento de um novo enigma na vida. Aquele trem, que durante tantos meses carregou a imagem da minha morte, agora se aproximava vazio, sem ninguém do lado de fora, nenhum corpo de homem, nenhuma bota, nada.
O meu assassino nazista, o soldado alemão, nunca existiram. Tudo foi apenas uma miragem, uma vertigem de Machu Picchu para que eu aprendesse o verdadeiro sentido da palavra perdão.
Fin
Fin